terça-feira, 3 de junho de 2008

DUBY, Georges. Economia Rural e Vida no Campo no Ocidente Medieval.

DUBY, Georges. Economia Rural e Vida no Campo no Ocidente Medieval.
Estrutura: Novos caracteres da economia rural. 1. Calamidades. 2. Despovoamento dos campos. 3. Restrição do espaço cultivado. 4. A evolução dos preços e dos salários. 5. Tentativa de interpretação.
Resumo:

Os documentos desse tempo são excelentes testemunhos dessas calamidades, que podemos classificar em três categorias. À fome e à guerra vieram juntar-se ainda outras calamidades que, por sua vez, abalaram mais profundamente as estruturas da economia rural. Trata-se das mortalidades, das epidemias, das pestes, e particularmente a mais brutal de todas elas: a Peste Negra. É necessário considerar que se as fomes e as campanhas militares foram acidentes superficiais, as mortalidades, que determinaram uma ruptura duradoura na evolução demográfica, atingiram verdadeiramente as estruturas rurais. Através delas chegamos às modificações de fundo que as novas séries de indícios revelam.

A mais aparente destas modificações é uma baixa de população, esta não acidental, mas de longa duração. Esta quebra sucede, segundo parece, de maneira bastante brusca ao longuíssimo período de crescimento ininterrupto. Ela é comprovada por um conjunto convergente de testemunhos indiretos, tais como o aumento dos salários, a diminuição das superfícies semeadas e o abandono dos lugares habitados. Excetuando algumas zonas rurais excepcionalmente favorecidas, a sangria fora espantosamente forte.

À rarefação dos homens corresponde o recuo da área de cultivo, de diminuição da ocupação da terra, que ocorreu pouco depois da paragem dos arroteamentos. Verifica-se que o abandono afetou, em numerosos territórios, um certo número de campos geralmente situados nos talhões periféricos da área da aldeia, nas últimas zonas que os agricultores tinham conquistado aos baldios e que então foram abandonadas. Pudemos reconhecer que muitas aldeias inglesas perderam os seus habitantes durante a Peste Negra e nunca mais foram reocupados.

As últimas modificações de estruturas dizem respeito ao valor respectivo dos produtos agrícolas e do trabalho camponês. Foram os salários dos trabalhadores sem qualificação que reagiram mais vivamente à alta. O importante para os destinos da grande empresa agrícola é que o encarecimento da jornada de trabalho se operou precisamente no momento em que os preços dos cereais caíam. A distorção acentuou-se ainda mais em meados do século XV; enquanto o índice dos salários não se alterou sensivelmente, o dos preços começou a baixar de novo depois de 1440.

Vejamos os fatos. Como interpretá-los? Uma outra modificação exterior às estruturas rurais afetou estas diretamente. Trata-se do crescimento dos estados e das suas seqüelas: o recrudescimento das guerras e o enorme desenvolvimento das fiscalidades dos príncipes. O sentimento gral de instabilidade e de insegurança que se seguiu provocou a contração de todas as atividades econômicas. O último golpe desferido do exterior e que podemos considerar acidental: a Peste Negra e o surto de morbidez que se implantou durante meio século na Europa.

Estas catástrofes não poderiam explicar por si próprias as mutações que afetaram a economia dos campos. Estas resultaram em muito mais larga medida de uma evolução interna que afetou as relações de produção e de consumo. O impulso mais profundo da inversão da conjuntura foi preparada durante os últimos anos do século XIII pelo empobrecimento progressivo de um setor cada vez mais extenso do campesinato e pelo superpovoamento que levara a estender exageradamente o cultivo, a solicitar terras demasiado pobres. Esgotadas, e para sempre, após algumas colheitas, estas teriam mais cedo ou mais tarde de ser abandonadas definitivamente. Estes dois movimentos atingiram o seu pleno desenvolvimento entre 1300 e 1370, período em que deve ser situado o momento decisivo da mutação. A alta taxa de mortalidade nas camadas inferiores da sociedade rural mantinha-se em níveis elevados, o que travou o crescimento da população durante anos e, em seguida, determinou o seu declínio. A passagem dos exércitos, as requisições das tropas levaram consigo os camponeses menos enraizados. As cidades crescem fortemente no início do século XIV, muitos aldeões deslocaram-se para aí, para desfrutar de uma melhor proteção: as cidades defendidas constituíam, de fato, refúgios em tempo de alerta. Esta redução do proletariado rural contribuiu certamente para o abaixamento dos preços do cereal, bem como para o aumento dos salários.

De conseqüências muito mais prolongadas foram certamente os acessos periódicos de peste que lhe sucederam: estes inclinaram de uma maneira decisiva a curva demográfica. As famílias que viviam há gerações na miséria e sob a dominação econômica dos empregadores conseguiram obter terras de arrendamento, e das melhores: eram-lhes oferecidas em toda a parte. O abandono dos talhões não férteis e das aldeias mal situadas não de deveu porque as mortes tenham sido mais numerosas nestas áreas, mas porque os homens que a peste tinha poupado deixaram as terras ingratas. A retração do espaço arável, na maior parte dos casos, resultou diretamente da depressão demográfica, mas manifestava também uma concentração da agricultura nos solos mais propícios.

Os diversos movimentos que modificaram as estruturas da sociedade camponesa reduziram por longo tempo o número de homens que solicitavam um emprego assalariado. O que permitiu aos camponeses que permaneceram ao serviço aumentar singularmente o seu nível de vida. Em todo o caso, é nítido que a densidade humana era fraca em muitos campos no final do século XIV. A terra era relativamente abundante, sua renda baixa e a mão-de-obra cara.

A baixa duradoura da população rural parece ter também prolongado a estagnação do comércio de cereais nos campos: muito menos numerosos que outrora, os assalariados das empresas agrícolas viviam agora, na sua grande maioria, em condição doméstica; alimentados pelo empregador, não tinham que comprar o seu pão. Nas cidades, em declínio pelas epidemias, o aprovisionamento das famílias tornara-se menos dependente dos mercadores de cereais, o receio da fome havia levado muitos a um abastecimento direto. Finalmente, talvez seja de tomar em consideração um movimento tendente a reduzir em certas regiões o consumo de pão e a aumentar a compra de alimentos de acompanhamento. Todos estes fenômenos conjuntos permitem explicar o prolongado marasmo do preço dos cereais. Convém não esquecer também que só os terrenos medíocres foram abandonados e que a concentração da agricultura nos solos mais favoráveis provocou provavelmente um aumento nos rendimentos médios. A previsão de más searas e o peso cada vez maior da fiscalidade obrigada todas as famílias camponesas a produzir excedentes negociáveis. Punham à venda em tempo normal abundantes quantidades de cereais

Marcos Katsumi Kay – N1

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